Empregos Inusitados: entrevista com um sinalizador ambiental

braille

Há coisas tão presentes em nosso cotidiano que a gente mal nota. Detalhes que nos acompanham por nosso caminho diário, que nos seguem em elevadores e, às vezes, em cinemas e locais de lazer. Detalhes que, de tão acostumados que estamos, se tornam invisíveis.

É curioso pensar que alguns deles tem como função justamente o oposto: tornar visível, ou melhor, perceptível as coisas para quem possui alguma deficiência visual. Seguindo nossa série de entrevistas com profissionais que trabalham em atividades tidas como “inusitadas”, conversamos com Lucas Costa, um paulistano, que é bacharel em desenho industrial, e especialista em fazer placas de sinalização ambiental.

 

Lucas, o que você faz exatamente e onde você trabalha?
Trabalho em uma empresa de sinalização ambiental (e tenho que explicar aqui que não tem a ver com ecologia, e sim com placas de sinalização como aquelas que encontramos nas estações de metrô) no setor de acessibilidade.

Os clientes entram em contato com a empresa e o meu trabalho é a partir da identidade visual deles desenvolver uma sinalização para pessoas com deficiência visual. Tenho que seguir as especificações das normas da ABNT 9050 em todos os trabalhos, quase como em um TCC mas com menos pressão. Normalmente é tranquilo porque a maior parte é adequação, mas às vezes surge a oportunidade de criar layouts do zero – ou quase – a partir de especificações que o cliente envia.

Como as pessoas reagem quando você conta o que faz?
“Como assim?”, “sério isso?” e “me explica melhor”, geralmente é o que escuto quando conto que trabalho com braille. Pra mim é ótimo porque sou tímido e quando não conheço alguém já é assunto para quebrar o gelo, haha.

Qual sua formação? E quais são os requisitos que o mercado exige para quem deseja entrar nessa área?
Sou Bacharel em Desenho Industrial(PV) pela UEL (basicamente: design). Caí de paraquedas na profissão, mas pelo que aprendi fazendo o importante é ter uma boa capacidade de síntese visual, ou seja tem que saber fazer um projeto gráfico. Saber interpretar normas técnicas e estar prestando atenção em detalhes e medidas. As máquinas de gravação possuem programas próprios e acho que não tem cursos para isso, a primeira (que era uma máquina pequena, dava até pra ter em uma oficina casa) aprendi mexendo e a segunda (já tamanho industrial) com um técnico que veio dos Estados Unidos fazer a instalação.

E  desde quando você trabalha com sinalização em braille?
Estou há dois anos trabalhando com isso, não sabia nada e nem fiz curso quando comecei. Na verdade, eu ia trabalhar como arte-finalista e acabou que precisavam de alguém para cuidar desta parte da empresa… E como eu conseguia me virar assumi o setor.

Como está o mercado hoje para profissionais como você?
Nossos maiores clientes são as construtoras. Faço trabalhos para várias regiões do Brasil, porém é um serviço tão específico que a não ser que você já tenha contatos dentro deste negócio não vale a pena investir muito. Um projeto realizado vai levar algumas décadas para ser trocado ou reparado. Na minha opinião existem poucos profissionais no Brasil, mas o suficiente para atender a demanda.

E dá dinheiro?
Dá dinheiro não! Basicamente é um trabalho de operador gráfico. Aqui na firma ainda acumulo mais umas funções…

Qual a melhor e a pior coisa de fazer o que você faz?
Melhores coisas: é um serviço simples, tenho certa estabilidade dentro da firma e posso brincar com layouts de vez em quando. Piores coisas: discutir com engenheiros e arquitetos sobre o que seria mais prático para um usuário com deficiência.

por: Thiago Dantas.


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