Empregos Inusitados: entrevista com uma professora de dança

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Dando prosseguimento a nossa série de matérias sobre empregos inusitados, conversamos hoje com uma professora de dança.

A dança é uma das artes mais antigas e interessantes que se tem notícia. Sem precisar de nenhum suporte além do próprio corpo de quem executa, a dança encanta por seus movimentos, sua simbologia, e por ser uma atividade física divertida e leve.

Para muitos, o ato de dançar é apenas um passatempo. Mas não para Mychelle Dantas, uma carioca que tem em suas veias dom e talento, que se apresentou na cerimônia de encerramento da última Copa do Mundo, e que fez da dança sua profissão.

Leia abaixo a entrevista que fizemos com ela.

Como é trabalhar com algo tão… Diferente?
Olha, trabalhar com dança é o que me move, literalmente. Nos dias mais cinzas, em que não quero levantar da cama, o senso de responsabilidade pelas pessoas e o papel da dança na vida delas é o que me guia. E com isso, a dança me transforma, porque ao exercer esta mudança positiva na vida do outro, tenho ela de volta na minha.

E como as pessoas, em geral, encaram sua profissão? Qual é a primeira reação que elas tem quando você conta como ganha a vida?
Há duas reações principais, muitas vezes tidas em conjunto; “você trabalha com dança e faz mais o que?”,”nossa, mas você é tão inteligente?” “não é uma coisa certa, né, e no futuro?”… E também costumam dizer “que show!”, “quem dera se eu pudesse trabalhar com o que gosto!”, “você que é feliz!”…

Você é feliz mesmo? Qual a melhor e qual a pior coisa de ser uma professora de dança?
A melhor coisa é ver o que está ensinando acontecendo na hora, e ter o feedback positivo dos alunos em forma de carinho e gratidão. Talvez a pior é a dureza encontrada nas artes, falta de valor financeiro que leva a uma vida oscilante em vários quesitos.

Pois é. Ainda bem que você tocou nesse assunto. É possível viver de arte? Ensinar as pessoas a dançar dá dinheiro?
Se arte no Brasil dá dinheiro? A dança é a prima pobre das artes, e a dança de salão é a prima pobre da prima pobre. Existem algumas tabelas nos Sindicatos que visam determinar um piso salarial, mas dificilmente elas são praticadas. No mundo real se trabalha muito com porcentagem, e os valores variam de estado a estado… Se adaptando, dá até pra viver modestamente.

Falando sobre o mercado de trabalho, ele está favorável para professores de dança? Qual sua formação? E quais são os requisitos que o mercado exige para quem deseja entrar nessa área?
Sempre existe trabalho; mas também há quem não queira pagar honestamente e quem aceite qualquer vintém. Sobre a dança em si, por ser uma profissão nova, embora tenha registro no Ministério do Trabalho, ela ainda é de certa forma informal. Existe faculdade de dança, porém, sem ênfase em dança de salão. São mais cursos livres.

Eu fiz um Curso de Extensão em Dança de Salão que foi uma iniciativa da Associação Nacional de Danças de Salão. Esse curso contou com diversos profissionais que atuam em universidades e matérias complementares a dança, que iam de História da Arte a Psicomotricidade.

E como você virou professora de dança?
A dança fez parte dos meus sonhos de Sessão da Tarde dos anos 80 e seus filmes no tema. Fiz um pouco na escola, mas era caro para realidade da família, então a continuidade e principalmente as apresentações não cabiam no orçamento, deixei pra lá.

Eu tive uns problemas sérios no trabalho (trabalhava no comércio) e fiquei deprimida, então resolvi mudar de ramo. Encontrei uma vaga de recepcionista, fui e era uma escola de dança. Era ótimo estar naquela ambiente, mas poucos meses depois que entrei o apartamento da minha família pegou fogo, então tive que mudar mais uma vez de emprego para ajudar na reconstrução.

Nisso a academia fez uma festa para me presentear com enxoval e coisas que perdi, e o dono ofereceu aulas gratuitas para eu relaxar a noite. Na primeira eu fugi, não me sentia capaz. Depois ele insistiu, eu voltei e em outra modalidade exercia muito bem minha memória e capacidade de transmitir o aprendido, então ele me ofereceu uma bolsa de estudos e não parei mais.

E pensar que um ano antes, assistindo Dirty Dancing, enquanto pensava “é, a dança vai ficar para próxima vida!”… E hoje em dia cheguei a dançar no Maracanã no encerramento da Copa do Mundo. Dá pra acreditar?

por: Thiago Dantas.


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