Empregos Inusitados: entrevista com uma ex-vendedora de churro e ostra

vendedora de churro e ostra

Finalizando nossa série sobre empregos inusitados, publicamos hoje nossa última entrevista.

Ao contrário de todas as outras, que versavam sobre profissões e áreas pouco celebradas ou comentadas, nossa conversa com Leticia Conca, estudante de design gráfico na Universty Of Arts London, aborda um emprego aparentemente comum: o de vendedora – que de “comum”, no caso dela, tinha apenas a função de vender, tendo em vista que, no passado, ela vendia… Ostras e churros!

Leia abaixo a entrevista que fizemos com ela.

Leticia, você já vendeu churros e ostras, e hoje estuda design e mora em Londres. Sua carreira é o que a gente pode chamar de inusitada. Sempre foi assim? Qual foi seu primeiro emprego?
Meu primeiro trampo foi no Brasil, mais precisamente em Santo André (onde nasci). Eu tinha 17 anos e trabalhava numa lojinha de conveniência do posto de gasolina perto da minha casa… Hahaha.

Falando sobre sua experiência como vendedora, como que as pessoas reagem quando você conta que vendia produtos tão incomuns?
Quando eu menciono churro e ostra os brasileiros realmente ficam com cara de “hãn???” e quando digo que vendia o churro no meridiano de Greenwich, a coisa se torna ainda mais insólita e surreal, mas acontece que o mercado onde eu vendia churro era mesmo ao lado de onde tem o famoso meridiano.

O trampo das ostras também desperta interesse nas pessoas, principalmente em saber se eu não ficava com cheiro de peixe nas mãos o dia inteiro e se eu vendia champagne junto com as ostras (o que não acontecia, já que eu vendia as ostras num mercadinho super hipster de Londres e vender champagne seria “bourgeois” demaaaais pra hipsteraiada, haha).

Aliás, o que te levou a trabalhar com isso? Você gostava?
Te digo sinceramente que trabalhar com o público não é a coisa que mais gostei de fazer da vida, viu? Não é muito pra mim porque não tenho paciência pros melindres dos clientes. Mas eu tenho uma coisa muito boa: eu disfarço muito bem. Então meus chefes sempre elogiaram a forma como eu atendia, diziam que eu era super educada e simpática, mas era tudo fachada – risos.

Eu escolhi esses trabalhos por falta de outra oportunidade. Na época eu não apenas era estrangeira e morava fora do Brasil, como meu inglês ainda não era perfeito (era bom o suficiente pra servir clientes, mas não bom o bastante para trabalhar em um escritório ou algo que exigisse mais vocabulário). Então eu pegava qualquer emprego que aparecesse.

E dava dinheiro?
Dava muito dinheiro… Principalmente pros meus chefes! Pra mim dava o suficiente pra pagar meu aluguel, comer, e dar uma saidinha com os amigos de vez em quando.

Mas você se divertia sendo vendedora? Qual era a pior e a melhor coisa de fazer o que você fazia?
A pior coisa em trabalhar como vendedora são os clientes. E a melhor coisa também. Porque ao longo de um dia de 8 horas vendendo você acaba conversando com todo o tipo de gente: gente bacana, simpática, educada, etc, e também com gente grossa, intransigente, esnobe, etc. É um excelente exercício pra se aprender a lidar com todo tipo de pessoa e se tornar uma pessoa mais flexível e aberta.

Qual sua formação? Na época que você vendia ostra e churro você estudava? Tinha feito algum curso específico sobre venda?
Na época em que eu vendia as ostras e os churros eu tinha apenas a faculdade de Ciências Sociais incompleta no Brasil (deixei o curso no meio do segundo ano e vim embora pra Londres).

Eu nunca fiz nenhum curso de vendas… Tinha feito curso de Bartender no Senac mas trabalhei apenas uma vez como bartender por menos de um mês.

Já rolou alguma história ou situação muito engraçada que você lembre com carinho até hoje?
Olha, aconteciam muitas coisas engraçadas na barraca do churro porque o chefe era uma figura… Mas acho que a história que melhor me lembro não é engraçada e aconteceu na barraca das ostras.

Logo no começo eu tinha muita dificuldade pra abrir as ostras: meus braços e dedos doíam. Então eu cheguei para a gerente e disse pra ela “será que você poderia me dar uma faca diferente? Essa daqui parece estar meio ruim para abrir as ostras”. A gerente, uma inglesa de pouquíssimos amigos, virou pra mim e disse “um trabalhador ruim sempre coloca a culpa nas ferramentas que usa” (a bad workman always blames his tools).

Na hora eu fiquei com muita raiva dela, mas hoje em dia percebo como ela tinha razão no que disse pois afinal de contas não havia nada de errado com a faca, eu é que não tinha a prática e o jeito de fazer a coisa… mas depois de muitas ostras, aprendi a manha e abria tudo rapidinho, sem problema nenhum!

por: Thiago Dantas.


Veja aqui vagas de empregos para a área de vendas.

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